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terça-feira, 29 de novembro de 2011

Vocalises: o desafio da adequação ao canto popular - Diana Goulart e Malu Cooper.

   Os vocalises talvez sejam a ferramenta didática mais largamente utilizada nas aulas de canto. Todo aluno de canto está familiarizado com a prática de vocalises. Estes exercícios são, em última análise, frases musicais que podem ter maior ou menor complexidade (desde uma única nota até uma peça musical completa) e são repetidas em diferentes tonalidades, exercitando diversos aspectos da técnica vocal. Todos nós, professores de canto e/ou preparadores vocais, temos um repertório de vocalises que utilizamos em nossas aulas. Alguns professores gostam de usar sempre os mesmos exercícios, para que os alunos se habituem a uma rotina de estudos; outros preferem variar o material didático de acordo com as necessidades de cada aluno, ou de cada peça estudada.

Mas observamos que quase sempre estes fragmentos de melodia são derivados do canto lírico, ou das aulas de canto lírico. O modelo que temos de vocalise é vinculado à sonoridade e à proposta estética do Bel Canto. Uma outra constatação é que muitas vezes os vocalises (principalmente os mais simples, de aquecimento ou os utilizados com alunos iniciantes) são considerados exercícios puramente "técnicos", ou seja, não têm uma vinculação clara com qualquer tipo de referência musical.

Há então uma enorme dificuldade em se atravessar a "ponte" da técnica para a prática, especialmente quando se trabalha com o canto popular; é como se houvesse um lapso no aprendizado que coloca em dois mundos diferentes os vocalises e o repertório. Como conseguir transpor os progressos vocais alcançados nos vocalises para a performance usando o repertório escolhido?

A semelhança entre os nossos questionamentos pedagógicos gerou um trabalho ao qual dedicamos vários anos de pesquisa e experimentação prática. Nossas pesquisas iniciais apontavam um caminho ainda desconhecido mas que nos pareceu muito promissor: assim como os exercícios de canto lírico utilizavam toda a concepção musical do Bel Canto, poderíamos inventar vocalises que utilizassem o paradigma estético da música popular. Seria uma tarefa de grandes proporções. Não bastaria criar vários exercícios aleatoriamente, mas era preciso ter muito claros os objetivos de cada um e organizá-los segundo esta classificação. Quais aspectos da técnica vocal eram mais relevantes para o cantor popular? Que necessidades específicas, que exigências vocais ele enfrenta em suas apresentações? Que tipo de situação melódica seria eficiente para abordar estes aspectos?

O primeiro passo foi começar a contextualizar os vocalises tradicionais em uma harmonia popular. O acompanhamento de cada um começou a ser mais pensado e burilado. É claro que seria simples fazer um I - IV - V - I nos tons maiores. Quase tudo se encaixaria ali. Mas, aos poucos, fomos começando a mexer nessa harmonia, colocando acordes de substituição, dissonâncias e "enriquecendo" esses acordes. Evidentemente a harmonia nunca está sozinha: ela só existe ligada a um ritmo, uma "levada", um estilo. Imediatamente, começaram a surgir vocalises com mais "balanço" e mais próximos do repertório que seria trabalhado. A resposta dos alunos foi imediata. Além do prazer que sentiam ao cantar, automaticamente começavam a soltar mais o corpo, mostrando-se completamente à vontade.

Mesmo assim, ainda havia um empecilho: e a letra? Todos achavam muito mais simples exercitar com vogais sustentadas mas diziam que na hora de colocar a letra a coisa mudava. Então começamos a partir para uma nova etapa. Começamos o processo de criação de vocalises originais, associados a ritmos e harmonias coerentes com as novas melodias. Se antes aproveitávamos melodias dos vocalises tradicionais que usávamos adaptando-os para uma roupagem mais popular, agora criávamos vocalises em determinados estilos. Para isso foi preciso um olhar mais detalhado sobre as características de cada estilo para que não criássemos monstrengos adaptados. Se a idéia era criar um samba, ele teria melodia, letra, acompanhamento e interpretação de samba. O processo era de análise, vivência musical, aplicação, crítica e aperfeiçoamento. A isto associamos os objetivos técnicos: por exemplo, o frevo tem tipicamente uma melodia muito ativa, cheia de saltos rápidos, exigindo da voz uma emissão ágil e precisa. É o tipo de exercício ideal para se trabalhar no cantor a agilidade, a flexibilidade e a articulação. Assim foi nascendo o "Por Todo Canto", nosso livro de vocalises totalmente voltado para o canto popular.

Cada vocalise trazia uma sugestão estilística, uma idéia do que aquele estilo pedia em termos de sonoridade e interpretação. Foi ficando mais fácil para os alunos entenderem o texto/contexto musical.
Tanto em aulas de canto individuais ou em grupo quanto em ensaios de corais a maneira como os alunos se relacionam com os exercícios mudou. A disposição agora é outra. Os exercícios propostos são na verdade trechos de música popular, e praticá-los passou a ser uma atividade "legal" (ou mais legal, para aqueles que já gostavam de se exercitar). Afinal, agora eles estavam fazendo música durante os exercícios, desde os primeiros estágios.

É claro que não abandonamos as outras etapas. Para cada objetivo lançamos mão de uma forma diferente de exercitar. Continuamos a usar exercícios tradicionais vocálicos sempre que consideramos necessário; mas agora eles estão numa outra perspectiva, pois não são mais a única referência de exercício que os alunos têm.

Criar e organizar criteriosamente esta coleção de exercícios de técnica vocal foi a forma que encontramos de enfrentar um grande desafio: desenvolver estratégias pedagógicas eficazes para preparar o cantor popular. Não temos a pretensão de ter criado um método definitivo, pronto, acabado: ao contrário, a proposta é que cada professor se sinta motivado a criar novas formas de aplicar os exercícios apresentados, buscando novas alternativas melódicas que se encaixem nos acompanhamentos oferecidos, sempre de acordo com as necessidades específicas de cada aluno ou grupo. Acreditamos que é este o papel do professor - buscar ampliar ou aperfeiçoar os seus recursos pedagógicos, sem perder de vista os seus objetivos e os objetivos dos alunos; e sobretudo ter em mente que a técnica vocal é uma ferramenta valiosa, mas que só encontra sentido se estiver a serviço da arte, da expressão, da música.

Diana Goulart e Malu Cooper

Link: http://www.dianagoulart.pro.br/texto_vocalises.php

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